A inclusão de alertas de checagem de fatos durante debates eleitorais é o objetivo de uma mobilização pública às vésperas do segundo turno das eleições de 2026. Uma petição na plataforma Change.org pede que a TV Globo apresente verificações diretamente na transmissão do debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), marcado para sexta-feira (23). A proposta busca esclarecer declarações dos candidatos durante o programa e fazer com que as informações verificadas acompanhem os vídeos compartilhados posteriormente nas redes sociais.
Na manhã desta quinta-feira (22), quando a equipe da AsteriscoTV acessou a página do abaixo-assinado, a campanha contabilizava 1.097.279 assinaturas. Criada na última segunda-feira (19), a iniciativa solicita que a emissora aproveite a experiência do Fato ou Fake, serviço de checagem do Grupo Globo, para verificar declarações durante o confronto eleitoral. O pedido defende critérios transparentes, aplicados igualmente aos participantes.
A discussão ganhou força após o debate promovido pela TV Band em 18 de outubro. A emissora contou com a Agência Lupa para realizar análises das declarações dos candidatos em tempo real, mas não apresentou, de maneira sistemática, alertas visuais centralizados na tela que classificassem as afirmações como verdadeiras, falsas, imprecisas ou fora de contexto no momento em que eram feitas.
A diferença está na forma como a checagem chega ao público. Publicar uma análise em um portal ou nas redes sociais permite que o espectador consulte a informação separadamente. Exibir o resultado diretamente na imagem, por sua vez, faz com que o alerta acompanhe a transmissão original e possa permanecer nos trechos reproduzidos posteriormente.
A mobilização também levanta uma questão sobre o papel das emissoras na circulação de informações políticas. Trechos de debates são frequentemente recortados para vídeos curtos e publicados por candidatos, apoiadores e outros perfis. Quando essas gravações circulam sem as perguntas anteriores ou as explicações necessárias para compreender uma declaração, o público pode ter acesso a uma versão incompleta do que foi discutido.
Resistência, interesses comerciais e desafios da checagem
A ausência de verificações incorporadas às transmissões não se explica apenas pela dificuldade de apurar informações em poucos minutos. Em editorial publicado em 19 de outubro, a Agência Lupa afirmou que tenta viabilizar a checagem em tempo real nos debates televisivos há mais de uma década. Entre os obstáculos apontados estão a resistência de campanhas de diferentes partidos, as dificuldades de negociação com organizadores, os interesses comerciais e as questões jurídicas relacionadas à cobertura eleitoral.
A checagem exige uma equipe preparada para identificar afirmações verificáveis, consultar documentos e bases de dados, analisar informações e revisar conclusões durante o programa. Algumas declarações podem ser confrontadas com dados previamente levantados, enquanto outras dependem de consultas adicionais. Nem toda fala pode receber uma classificação imediata sem risco de erro.
Segundo a Lupa, negociações anteriores com emissoras e organizadores chegaram a avançar, mas encontraram resistência de representantes de campanhas. A organização também relatou preocupações comerciais em discussões anteriores, incluindo o receio de que candidatos desistissem de participar dos debates ou de que verificações provocassem conflitos posteriores com políticos.
Há ainda questões relacionadas à isonomia eleitoral. As emissoras precisam assegurar tratamento equilibrado aos candidatos, enquanto uma equipe de checagem pode encontrar mais declarações incorretas ou incompletas de um participante do que de outro. A aplicação dos mesmos critérios, portanto, não significa que todos devam receber a mesma quantidade de alertas. O requisito é que as avaliações sigam procedimentos consistentes, independentemente de quem tenha feito a afirmação.
Também é necessário distinguir fatos de opiniões, previsões e promessas. Números, declarações sobre acontecimentos passados e informações sobre políticas públicas podem ser confrontados com evidências. Já uma promessa de governo não pode ser classificada como verdadeira ou falsa apenas com base em resultados que ainda não existem. Quando os dados disponíveis forem insuficientes, a limitação precisa ser informada.
Além da petição pública, a Agência Lupa propôs à TV Globo e à Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) uma força-tarefa para verificar declarações durante o debate de sexta-feira (23). Até o momento relatado nas informações disponíveis, a agência ainda não havia recebido resposta da emissora. Também houve articulações para a publicação de checagens no g1 durante o programa, alternativa que não significa necessariamente a inclusão de alertas no sinal televisivo.
As duas modalidades podem coexistir, mas cumprem funções diferentes. A publicação digital permite apresentar análises mais detalhadas e disponibilizar fontes para consulta. A checagem incorporada à transmissão exige que as conclusões sejam exibidas em um formato visual compreensível, com rapidez suficiente para acompanhar o debate e sem comprometer a precisão.
Band tinha estrutura digital, mas não exibiu alertas sistemáticos
A experiência da Band permite discutir como a tecnologia já utilizada pelas emissoras poderia contribuir para esse modelo. A empresa mantém, em parceria com o Google, a Sala Digital Band Google, estrutura que utiliza dados do Google Trends para acompanhar assuntos de interesse do público e auxiliar a produção jornalística. O projeto teve origem em uma experiência durante os debates eleitorais de 2018 e foi ampliado posteriormente.
A Sala Digital, entretanto, não é um sistema de checagem automática das declarações dos candidatos. O monitoramento de buscas identifica temas que despertam interesse, enquanto a verificação jornalística exige consulta a documentos, bases de dados e outras fontes para avaliar cada afirmação.
Em 2026, a Band também contou com a Agência Lupa para analisar declarações durante o debate de 18 de outubro. Apesar da parceria, as conclusões não foram apresentadas de maneira sistemática por meio de alertas centralizados na imagem. A existência de uma estrutura digital e de uma equipe especializada, portanto, não garante que os resultados sejam incorporados à transmissão.
Durante o programa, a emissora utilizou uma marca-d’água centralizada na imagem, recurso que ajuda a identificar a origem do conteúdo quando trechos são recortados e publicados nas redes sociais. A partir dessa experiência, uma possibilidade seria aproveitar a área central da tela para inserir alertas de checagem, além da identificação visual da transmissão.
Nesse formato, uma declaração verificada poderia aparecer acompanhada de indicações como “falso”, “impreciso” ou “fora de contexto”, sempre com uma explicação sucinta e baseada em evidências. A classificação precisaria ser definida após a apuração, e não aplicada automaticamente no momento em que o candidato começasse a falar.
A incorporação do alerta à imagem original poderia ajudar a manter a verificação nos recortes compartilhados posteriormente. Um vídeo publicado nas redes sociais ou encaminhado em grupos de WhatsApp levaria consigo a classificação apresentada durante a transmissão, desde que o trecho preservasse a área em que o aviso estivesse inserido.
O recurso não impediria tecnicamente que alguém editasse o vídeo, cobrisse o alerta ou reconstruísse o trecho a partir de outra gravação. Ainda assim, poderia aumentar o trabalho necessário para retirar a informação e tornar mais perceptível que o conteúdo foi alterado em relação à transmissão original. A proposta busca dificultar a circulação de recortes sem contexto, não garantir que eles deixem de existir.
Para funcionar, o modelo exigiria critérios editoriais definidos previamente, espaço para revisão das conclusões e procedimentos para corrigir eventuais erros. Também seria necessário planejar a posição dos avisos para que permanecessem visíveis tanto na transmissão televisiva quanto nos formatos verticais utilizados nas plataformas digitais.
A checagem durante debates pode assumir outros formatos. Organizações jornalísticas publicam análises em sites e redes sociais ou encaminham informações verificadas para apresentadores durante programas ao vivo. Em entrevista ao Brasil de Fato publicada em 21 de outubro, Bernardo Moura, diretor de jornalismo e novas mídias do Aos Fatos, relatou uma experiência realizada em 2024 com a TV Cultura, na qual análises de declarações de candidatos eram encaminhadas à equipe do programa Roda Viva para leitura durante a transmissão.
Com o debate presidencial marcado para sexta-feira (23), a mobilização em torno da TV Globo coloca em discussão não apenas a realização da checagem em tempo real, mas também a forma como as verificações chegam ao público. A inclusão de alertas na imagem poderia ampliar o alcance das informações e dificultar a circulação de recortes sem contexto. A adoção do recurso, porém, depende de decisões editoriais, rigor na apuração e transparência nos critérios aplicados a todos os candidatos.